CAPAG: o que é, como consultar e como usar antes de participar de uma licitação
Ganhar a licitação é só metade do trabalho — receber dentro do prazo é a outra. Antes de investir dias preparando uma proposta, vale saber se o órgão tem histórico de pagar em dia. É exatamente isso que a CAPAG permite verificar.
O problema do calote nas licitações
Uma das maiores frustrações de quem fornece para o governo é ganhar o contrato e não receber. O atraso de pagamento por estados e municípios endividados é um problema real e recorrente no Brasil — e pode colocar o fluxo de caixa de uma empresa em sério risco.
Diferentemente do setor privado, contratos públicos têm prazo legal de pagamento (em geral 30 dias após o recebimento da nota fiscal). Mas entes fiscalmente frágeis frequentemente descumprem esse prazo, com atrasos que chegam a meses ou até mais de um ano. Conhecer o indicador CAPAG antes de participar é uma forma inteligente de filtrar esse risco.
O que é a CAPAG
A CAPAG (Capacidade de Pagamento) é uma classificação oficial do Tesouro Nacional que mede a saúde fiscal de estados e municípios. Ela resume, em uma nota de A a D, o quanto o ente público está apto a assumir novas obrigações financeiras e honrar os compromissos já existentes.
A CAPAG foi criada originalmente para orientar a concessão de garantias da União em operações de crédito dos estados e municípios. Com o tempo, tornou-se um indicador amplamente consultado por fornecedores, bancos e analistas para avaliar o risco fiscal de cada ente.
Como funciona o cálculo da CAPAG
O Tesouro Nacional calcula a CAPAG a partir de três indicadores principais:
1. Poupança corrente
Mede se o ente gasta mais do que arrecada nas receitas e despesas correntes (antes de investimentos). Um estado ou município que não consegue gerar poupança nas operações correntes está consumindo mais do que produz — sinal de desequilíbrio fiscal. Resultado: nota A (poupança positiva) ou C (poupança negativa).
2. Dívida consolidada
Compara o total da dívida do ente com sua receita corrente líquida (RCL). Estados e municípios muito endividados em relação às suas receitas têm menos margem para honrar novos compromissos. Resultado: nota A (dívida dentro do limite) ou C (acima do limite).
3. Índice de liquidez
Verifica se o ente tem reservas suficientes para cobrir obrigações de curto prazo. Um ente com poucos recursos em caixa em relação ao que precisa pagar nos próximos meses está sob risco imediato de inadimplência. Resultado: nota A (liquidez adequada) ou C (liquidez insuficiente).
A nota final da CAPAG combina os três indicadores:
- Nota A — todos os três indicadores em situação favorável (nota A individual). Situação fiscal sólida. Apto a obter aval da União para novos créditos;
- Nota B — um dos indicadores em nota C, os outros em A. Situação boa, com ponto de atenção;
- Nota C — dois indicadores em nota C. Situação de atenção — risco maior de atraso em pagamentos;
- Nota D — todos os indicadores em situação desfavorável ou critério de inaptidão. Situação fiscal frágil, alto risco de inadimplência.
Quais entes recebem a CAPAG
A CAPAG é calculada para os 26 estados, o Distrito Federal e os municípios que apresentam suas informações ao Tesouro Nacional via SICONFI (Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro).
É importante entender o que não entra na CAPAG:
- Órgãos federais (ministérios, autarquias, universidades federais, hospitais federais) — não recebem nota CAPAG. O governo federal tem dinâmica fiscal distinta e acesso a recursos que estados e municípios não têm;
- Empresas públicas e estatais — têm avaliação própria, separada da CAPAG;
- Municípios muito pequenos que não entregam dados ao SICONFI podem não ter CAPAG calculada.
Como consultar a CAPAG de um estado ou município
O Tesouro Nacional publica a CAPAG no portal da Secretaria do Tesouro Nacional (STN), na seção de capacidade de pagamento. A consulta é pública e gratuita. Basta acessar o portal do Tesouro Transparente e buscar pelo nome do estado ou município desejado.
As notas são atualizadas periodicamente com base nos balanços entregues pelos entes. Uma prefeitura que melhorou sua situação fiscal pode ter a nota revisada para cima; entes que pioraram têm a nota rebaixada.
Como usar a CAPAG na sua estratégia de licitações
A CAPAG deve funcionar como um filtro de risco dentro da sua estratégia de participação em licitações. Algumas formas práticas de usá-la:
Priorize entes com nota A ou B
Se você tem capacidade limitada de proposta (tempo da equipe, capital de giro), concentre-se em editais de entes com boa situação fiscal. A chance de receber no prazo é significativamente maior.
Ajuste o preço pelo risco
Fornecedores experientes embitem um preço ligeiramente mais alto em licitações de entes com nota C ou D para compensar o risco de atraso no recebimento. O custo do capital parado ou de financiar o prazo de recebimento deve entrar no cálculo da proposta.
Evite concentrar receita em um único ente de alto risco
Diversificar a carteira de contratos públicos entre vários entes (especialmente entre federal, estadual e municipal) reduz o impacto caso um deles atrase pagamentos.
Monitore mudanças nas notas
A situação fiscal dos entes muda. Um estado que tinha nota B pode ser rebaixado para C após uma crise de arrecadação. Se você tem contratos com entes de nota intermediária, fique atento às atualizações.
CAPAG e o risco real de inadimplência
É importante ter clareza sobre o que a CAPAG indica e o que ela não garante:
- A CAPAG não é uma garantia de pagamento. Entes com nota A ainda podem atrasar por questões administrativas, processuais ou de contingenciamento orçamentário;
- Entes com nota D não são necessariamente inadimplentes com todos os fornecedores — podem priorizar alguns pagamentos em detrimento de outros;
- A nota reflete a situação fiscal agregada do ente, não a situação de secretarias ou departamentos específicos;
- A CAPAG é o melhor indicador público e sistemático disponível, mas não substitui o bom senso e o histórico de experiências de outros fornecedores.
Outras formas de avaliar o risco de recebimento
Além da CAPAG, outros recursos podem ajudar a avaliar o risco de recebimento antes de licitar:
- Transparência orçamentária do ente — portais de transparência municipal e estadual mostram o nível de execução orçamentária e a situação de pagamentos;
- Histórico de outros fornecedores — perguntar a outros fornecedores do seu setor sobre a experiência de recebimento com determinado órgão;
- Boletins do Tesouro Nacional — relatórios periódicos sobre a situação fiscal dos entes subnacionais;
- Notícias e comunicados — prefeituras e estados em crise fiscal costumam aparecer na imprensa antes de atrasar pagamentos sistematicamente.
Participe de quem paga em dia
O BidManager exibe a capacidade de pagamento de cada órgão diretamente nos editais. Filtre pelos melhores pagadores antes de montar sua proposta.
Conhecer o BidManagerPerguntas frequentes sobre a CAPAG
O que é a CAPAG?
É a Capacidade de Pagamento, classificação oficial do Tesouro Nacional que avalia a saúde fiscal de estados e municípios com notas de A a D, indicando a capacidade do ente de honrar compromissos financeiros.
Como são as notas da CAPAG?
A: situação fiscal sólida (apto a obter aval da União). B: situação boa. C: atenção. D: situação fiscal frágil, maior risco de inadimplência. A nota combina três indicadores: poupança corrente, dívida consolidada e índice de liquidez.
A CAPAG vale para órgãos federais?
Não. É calculada apenas para estados e municípios. Ministérios, universidades federais e autarquias federais não recebem nota CAPAG.
Com que frequência a CAPAG é atualizada?
O Tesouro Nacional publica atualizações periodicamente, com base nos balanços anuais dos entes. A nota pode mudar ao longo do tempo conforme a situação fiscal melhora ou piora.
Posso usar a CAPAG para decidir em quais licitações participar?
Sim. É a estratégia recomendada: priorize editais de entes com nota A ou B para reduzir o risco de atraso no recebimento. A CAPAG não garante pagamento, mas é o melhor indicador público disponível de saúde fiscal.
O que fazer se o órgão não pagar dentro do prazo?
O fornecedor tem direito a juros e atualização monetária pelo atraso (conforme a Lei 14.133/2021 e a Lei 9.430 para fins de crédito tributário). Se o atraso for prolongado, é possível enviar notificação extrajudicial e, se necessário, acionar judicialmente o ente pelo Precatório ou Requisição de Pequeno Valor (RPV), dependendo do valor.